quinta-feira, 13 de agosto de 2009

(Resumo) Análise do discurso e ciberespaço

Renan Belmonte Mazzola – UNESP/CAR
Membro do GEADA (Grupo de estudos em Análise do Discurso de Araraquara) e do GRUDIOCORPO (Grupo de estudos sobre o discurso e o corpo)
Email: renanbm@yahoo.com

Nossa pesquisa, realizada na Unesp/Araraquara, sob a orientação da prof. Dra. Maria do Rosário V. Gregolin, tem como objetivo principal compreender o ciberespaço através do mirante da Análise do Discurso de linha francesa, derivada dos trabalhos de Michel Pêcheux (e de seu grupo) e dos diálogos que ele traça com Michel Foucault e Mikhail Bakhtin. Num primeiro momento da pesquisa, trabalhamos com um “retorno à teoria” da AD, resgatando as suas três épocas e entendendo como se deram as reformulações pelas quais passou desde sua emergência, em 1969, até seu último estágio – retratado nos textos posteriores à década de 1980. Procuramos compreender também o lugar que Michel Foucault ocupa no interior da teoria discursiva de Pêcheux. Fizemos, por fim, uma breve consideração acerca da chegada da AD no Brasil, em função da abertura política brasileira, a qual lhe permitiu que florescesse. Num segundo momento, tentamos descrever a tela, circundá-la, para enxergar como ela se comporta enquanto suporte de leitura/escrita e enquanto espaço a partir do qual enunciados irrompem em uma condição própria de existência: a eletrônica. Para melhor compreendê-la como espaço, partimos da noção foucaultiana de “heterotopia”, que caracteriza os lugares que se encontram em relação de inversão ou contradição a todos os outros lugares existentes em uma sociedade. O ciberespaço, portanto, aproxima-se sobremaneira dessa noção, ao passo que submete os indivíduos a seus modelos maquínicos e multimodais/multimidiáticos, estabelecendo-se como espaço-outro. Num terceiro momento, isolando esses enunciados derivados eletronicamente do ambiente virtual, analisamo-os segundo os aparatos teóricos e metodológicos da AD, a saber: gêneros do discurso (de M. Bakhtin); identidade (Z. Bauman e M. Foucault); formação discursiva (a partir de Pêcheux e Foucault); e arquivo (através de Pêcheux, , Guilhaumou, Maldidier e Foucault). Por fim, fizemos uma análise arqueológica de alguns sites de relacionamento que prometem o encontro de pessoas cujos perfis semelhantes podem ser aproximados pela rede. São eles: Parperfeito, Namoro on-line e Match.com. Concluímos, assim, que o ciberespaço pode se caracterizar como um objeto válido e fecundo a ser tomado pelos estudos do discurso, pelo fato de envolver os discursos que nele circulam em regras próprias de existência, condições de produção específicas. O ciberespaço, hoje, é um lugar que agrega práticas derivadas de nossa modernidade líquida, fluida, e reflete muito de nosso momento histórico.

Orientação: Maria do Rosário V. Gregolin
Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa
Bolsa: CNPq

(Resumo) Discurso e memória na escrita confessional de Lori Lamby, em O caderno rosa de Hilda Hilst

Jaciane Martins Ferreira (UFU)
Email: ferreira_jaci@hotmail.com

O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst, se constitui no corpusde nossa pesquisa de mestrado. Esse Livro traz a história de uma garota de oito anos que relata suas possíveis experiências sexuais em um diário, seu caderno rosa. Ao laçarmos nosso para a obra em foco, percebemos que se trata de uma escrita confessional. De acordo com Foucault (1998), no século XVII, a confissão foi imposta, pela igreja católica, como um meio de controle tornando-se, assim, uma maneira da igreja saber o que se passava com as pessoas, inclusive no que diz respeito aos prazeres. A partir desse momento o sexo começou a ser discursivisado. Nesse sentido, poderemos verificar a construção da sexualidade como objeto histórico e produção de saber, analisando os procedimentos de controle e resistência na obra. Pensando sobre a maneira como a memória pode ser recuperada, por meio de imagens evocadas a partir da justaposição de discursos, buscaremos suporte nas reflexões de Courtine (1999), que rearticula, na direção apontada por Michel Foucault, os cruzamentos lingüísticos com a história. Para nossa análise, partiremos da identificação dos enunciados nos extratos a serem analisados, para tanto, usaremos os postulados de Foucault sobre enunciado. Considerando um conjunto de signos como enunciado, é preciso que a posição do sujeito-enunciador seja assinalada; nesse sentido, uma palavra ou frase pode ser usada da mesma maneira em momentos diferentes podendo ser determinada como diferentes enunciados. Tendo, então, uma formulação do enunciado, que aponta para uma posição sujeito sócio-historicamente marcada, não se trabalha com a relação entre autor e obra, visa, de acordo com Foucault, a determinar a posição que pode e deve ocupar cada indivíduo para ser sujeito. Em seguida, refletiremos sobre a memória a partir do que tais enunciados trazem à tona; para tanto, nos basearemos no conceito de memória discursiva, proposto por Courtine, como o que se estabelece devido a uma existência histórica do enunciado no interior de práticas discursivas e possibilita-nos alcançar uma maior interpretação do enunciado a ser lido.

Orientação: Prof. Dr. Cleudemar Alves Fernandes

(Resumo) Troca de família: discutindo o conceito de família na contemporaneidade

Sílvia Maria Alencar Silva
UESB

Neste trabalho, procuramos investigar à luz da Análise do Discurso francesa e dos pressupostos de Michel Foucault, a constituição identitária de família na contemporaneidade, como uma sociedade disciplinar que estabelece regras, dentro da qual se moldam sujeitos e cada um tem seu papel definido.Sendo o sujeito determinado pelo momento social e histórico em que vive, faremos uma análise de sua constituição tomando como corpus um reality show denominado Troca de família, transmitido pela Rede Record de televisão desde setembro de 2006 e baseado no reality show americano Trading Spouses, no qual duas famílias de contextos sócio-econômico distintos trocam suas mães por uma semana. Elas são submetidas às mais diversas situações dentro das novas famílias e este deslocamento de corpos é responsável por uma série de conflitos. A temática do programa gira em torno da família, tomando como exemplo as duas famílias participantes. Dentro desse acontecimento, permeado por diálogos e imagens, observaremos as relações de poder e saber entre os sujeitos e como eles se manifestam; faremos uma descrição dos enunciados verbais e não verbais produzidos, procurando identificar dispersões e singularidades no interior dos mesmos, além de identificar as memórias que eles resgatam através de uma interposição de imagens significativas do programa e de fotografias de família antigas, recorrendo, para isso, a um processo denominado intericonicidade, introduzido na Análise do Discurso por Jean-Jacques Courtine. e retomado por Nilton Milanez. Propomos ainda, alguns questionamentos. Por que estabelecer um determinado modelo de família como o único e não considerar outros? Qual a função da memória nos enunciados verbais e não verbais do programa? Que efeitos de sentido eles produzem? E por que a irrupção desse discurso no atual momento?

PALAVRAS-CHAVE: família, mídia, sujeito, discurso.

(Resumo) Doadores de órgãos: a construção da verdade em jornais impressos do Sudoeste da Bahia

Jussara dos Santos Matos
UESB

Este trabalho tem por objetivo analisar como se constituiu o discurso dos sujeitos nos jornais impressos da região do Sudoeste da Bahia em relação ao fato de ser ou não-doador de órgãos e tecidos. Buscaremos problematizar e analisar à luz da Análise do Discurso, cujos postulados se inscreverem na Ordem do discurso de Michel Foucault, como essa verdade se constituiu a partir das informações obtidas sobre o que vem a ser transplante e doação de órgãos e tecidos mediante aquilo que leram nos jornais impressos da região do Sudoeste da Bahia. Iremos, também, problematizar questões relacionadas à vulgarização do discurso científico, a construção de sentido na sociedade, as relações de poder entre sujeito e instituição e a questão de se pensar a própria morte.

Palavras-chave: corpo, discurso, divulgação científica, doação de órgãos, mídia.

(Resumo) Discurso e práticas jurídicas: materialidades discursivas em crimes de lesão corporal

Gleyson Lima Santos
(UESB/PIBIC/FAPESB)

Propõe-se investigar a discursivização dos processos em torno do crime de lesão corporal previsto no artigo 129 do Código Penal brasileiro – mais especificamente: a problemática que envolve as subjetividades que constituem as suas diversas modalidades qualificadoras –, isto é, as causas, os motivos e as circunstâncias de meio (políticas, ideológicas e sociais) e de inconsciente geradoras das diferenças de significado, da controvérsia nos litígios, da necessidade à proteção do corpo como bem da vida e assim por diante. Para tanto, utilizando a desconstrução dessas materialidades discursivas, identificaremos os funcionamentos discursivos que promovem os diferenciados efeitos de sentido e o que faz com que o legislador, compreendendo sua posição de sujeito e dado ao caráter dinâmico da norma, a dividir o tipo penal em condutas leves e mais graves, tratando as práticas de maneira diferenciada, de acordo com seu grau de reprobabilidade, e a maneira pela qual a sociedade interpreta (e redefine) os conceitos dispostos pelo texto legal e demais fontes do direito penal. Tomaremos como corpus, destarte, processos criminais, busca de acórdãos na jurisprudência e pesquisa na doutrina jurídica, tomando os postulados da Análise de Discurso de orientação francesa, destacando os trabalhos de Michel Foucault e os estudos de Michel Pêcheux. Debuxam-se, nessa linha, posições que formatam a constituição de verdades no interior de práticas judiciárias dentro do sistema penal brasileiro, colocando o corpo no centro das problematizações acerca de sua apropriação e investigação no que se refere à constituição das práticas jurídicas. Logo, o corpo será tomado como acontecimento discursivo, pois se torna materialidade imprescindível para compreender como se processa a construção do discurso que delimita o que é uma ofensa à integridade corporal ou à saúde grave e o que é uma ofensa gravíssima, assim como a caracterização do ato que resulta na discursivização do que se considera perigo de vida ou nos procedimentos de controle que envolvem os jogos de poder do ato agravado por se tratar de ofensa contra menor ou idoso, ou mesmo nas lesões causadas por violência doméstica e familiar contra a mulher. As diversas nuanças que o interpretador da norma legal deve identificar, e comprovar, de modo a delimitar a incidência, ou não, de circunstância apenatória que qualifica (no sentido de majorar) ou que privilegia nos permitem empregar o corpo do sujeito como fonte de sentido, tanto para a consecução da aplicação da lei, como para a reformulação dos sentidos e conseqüente reconstrução das bases mutáveis em que se desenvolve a norma através da história. Tal investigação nos possibilitará configurar um pequeno quadro do sujeito e da ordem do discurso na qual ele se insere nesse momento histórico determinado, apontando o que pode e deve ser dito no seio da ordem jurídica, ao mesmo tempo em que identifica no processo histórico e no momento de realidade em si as causas que condicionam os variados efeitos de sentido em relação ao corpo. A série discursiva que se depreende da regularidade dos enunciados apontados possibilita a construção das identidades brasileiras e de seus costumes, compondo fonte para a discursivização da própria norma e da conseqüente legitimação do ius puniendi estatal.

Palavras-chave: Discurso; identidade; lesão corporal; práticas jurídicas.

(Resumo) O corpo como campo discursivo e a construção de identidades nas escolas do MST

Fernanda Castro
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

O presente artigo propõe-se analisar como se dá, discursivamente, a construção das escolas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a partir de duas matérias sobre a escola do movimento, publicadas pelo jornal online A Semana da cidade de Vitória da Conquista na região Sudoeste da Bahia, averiguando a formação de identidades a partir desse discurso. Pretendo, também, com o embasamento da Análise do Discurso de linha Francesa, fundamentada nos escritos de Michel Foucault, estudar como a partir de memória e da posição que o jornal assume na história é feita a construção de identidades do movimento MST e de que forma são travadas as relações de poder no interior do seu âmbito educacional, entendendo esse espaço enquanto uma doutrina, que carrega o discurso da educação como ação libertadora e que, portanto, está inserido em uma Ordem do Discurso. Estudo a construção de sujeitos tendo o corpo como um espaço discursivo, um produtor e receptor de discursos, um agente social e histórico, que é perpassado por vários discursos e tem na mídia uma das ferramentas para a sua construção e adquire formas da posição que assume. O artigo analisa deste modo, a posição destes sujeitos, a partir de seus corpos, não se tratando neste discurso do corpo físico, mas de uma metaforização, em relação ao formato de educação proposto pelo movimento sem terra. Investigo, a partir dos estudos do conceito de verdade Foucaultiano, os efeitos de sentidos produzidos pelas reportagens sobre o MST, e as possíveis resistências nascidas no interior do discurso publicado por essa nova mídia eletrônica. Abordo ainda os procedimentos de controle usados pelo site online conquistense, para um entendimento da sua ação no seu público leitor, bem como o desenvolvimento de um progressivo formato estereotipado de discurso usado em relação à educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Palavras – Chave: Discurso, jornal, corpo, MST, escola.

(Resumo) SuperNanny: O sujeito discursivo e a disciplinarização dos corpos

Carolina Coelho Pinheiro (UESB)
carol_coelho@msn.com

O presente trabalho se insere na Análise do Discurso de orientação francesa e mobiliza conceitos e articulações sobre Discurso desenvolvidas no Brasil em torno de Michel Foucault. O tema proposto “SuperNanny: O sujeito discursivo e a disciplinarização dos corpos” coloca em relação à formatação de uma determinada moralidade sobre o corpo, observada a partir do programa televisivo “SuperNanny”. Buscando analisar os mecanismos de controle que esta mídia produz e os efeitos de resistência experienciados pelos espectadores, o tomaremos como objeto para o desenvolvimento deste estudo, trabalhando com a noção de “governametalidade” compreendida por Foucault. O estudo dos mecanismos de controle e resistência produzidos virtualmente viabiliza e faz proliferar os discursos sobre o corpo, monitorando idéias e, não paradoxalmente, incitando a recriação de discursos, ao colocar o sujeito mediante seu exercício de liberdade frente às relações de poder da qual participa tanto institucionalmente quanto em suas relações interindividuais. O corpo pode ser compreendido em suas relações de disciplina e controle, rede intricada de relações de poder, tanto em nível institucionais quanto domésticos. Quando tomado como objeto discursivo o corpo promove uma discussão aguda e extremamente relevante sobre a constituição dos sujeitos e a formação de suas identidades. Ao observar o programa “SuperNanny”, veiculado pelo canal SBT, podemos analisar a produção discursiva que envolve o corpo e suas técnicas de disciplinarização e controle, que apresentam formas de gerenciamento dos sujeitos por meio de uma pedagogia da prática cotidiana. A SuperNanny ,Cris Poli, utiliza métodos de ensino disciplinares, que podem ser compreendidos sob a luz das técnicas de coerção descritas por Michel Foucault: “Como vigiar alguém, como controlar sua conduta, seu comportamento, suas atitudes” (FOUCALT apud REVEL, 2005, p.35). Em primeiro instante, a governanta observa o cotidiano da família e analisa toda rotina. Após estabelecer as regras a SuperNanny deixa o lar sob a vigilância de uma câmera monitorando a distância. O cumprimento ou não das regras leva ao método de recompensa ou ao “cantinho da disciplina”. Considerando a pedagogia disciplinar pode-se concluir que o programa “SuperNanny” nos possibilita compreender as relações de poder que envolve o governo de si e suas extensões em relação ao governo dos outros, considerando a disciplina que incide diretamente sobre o controle da administração do tempo e dos corpos.