Para ver e discutir o corpo no cinema
O Grupo de Estudos sobre o Discurso e o Corpo (Grudiocorpo), em parceria com o Programa Janela Indiscreta, promove o curso Análise do Discurso – O Corpo no Cinema do Século XX, que acontece todas as terças-feiras do mês de setembro, no Teatro Glauber Rocha da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, às 18h30. A programação do evento é composta por exibições e análises de cinco filmes. O curso é ministrado pelo professor Nilton Milanez, coordenador do Grudiocorpo, e estudantes que participam do Grupo. Doutor em Lingüística e Análise do Discurso, Nilton é professor do Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários (DELL) da Uesb, campus de Vitória da Conquista, e desenvolve constantes pesquisas relacionadas ao corpo e à mídia.
O curso tem como objetivos discutir a Análise do Discurso e estudar a construção do corpo a partir dessa linha teórica, identificando, por exemplo, fatores que determinam se um corpo é bonito, feio ou levam à sua transformação ao longo do tempo. “Vamos pensar como nós, sujeitos do dia de hoje, nos inscrevemos na história e de que forma essa história se mostra; ela tem uma singularidade. Estamos mostrando as singularidades históricas do corpo nesses filmes dentro dessa disciplina”, explica Milanez.
Antes da exibição do filme nos encontros, acontece a apresentação e análise do tema. Após assistirem à película, os participantes do curso têm a oportunidade de comentar e discutir o assunto. Mais de 100 pessoas estão inscritas no evento. O primeiro filme exibido foi Nosferatu, uma produção de 1922. A película, dirigida por F. W. Murnau, é baseada no clássico da literatura Drácula, de Bram Stoker (1897). A construção do corpo monstruoso foi um dos principais assuntos discutidos nesse dia e o corpo do macabro personagem “Nosferatu”, o alvo da análise.
Nosferatu provocou vários comentários e interpretações a respeito da utilização dos recursos técnicos e dos efeitos de sentido que eles podem causar. As opiniões surpreenderam o professor Nilton Milanez: “Os estudantes têm trazido coisas hiper interessantes a respeito dos filmes, aspectos que eu, há muito tempo trabalhando a questão do corpo, não havia pensado. Acho muito legal essa contribuição dos alunos. O trabalho é uma construção também do público que está assistindo”.
O curso é uma oportunidade especial para quem aprecia a Sétima Arte e quer conhecer um pouco mais da Análise do Discurso fundamentada nos conceitos do teórico Michel Foucault. É o caso do estudante de Comunicação Social da Uesb Rafael Carvalho, que participa pela primeira vez de um evento relacionado à Análise do Discurso. “O curso é interessante por ligar essa linha de estudo ao cinema e ampliar o nosso conhecimento. Existe uma base teórica e isso faz com que a gente tenha curiosidade. Nós aprendemos alguma coisa e aliamos isso à questão do filme. Está sendo bastante agradável”, avalia Rafael Carvalho.
O filme exibido no segundo encontro foi Freaks, dirigido por Tod Browning e lançado em 1932. Foram analisadas questões como anormalidade, espetacularização e moralidade. “Há muito tempo que eu não gostava tanto de um filme assim”, revela o jornalista Gil Brito, se referindo a Freaks. “O roteiro é muito bem feito. É interessante esse confronto na definição de monstro. Primeiro, o critério para considerar alguém ‘monstro’ era físico, mas, depois, na segunda metade do filme, passa a ser a questão de caráter. Gostei muito, por isso”, conclui.
A aluna de Comunicação Social da Uesb Luara Vieira, que analisou Freaks, afirma que o filme é muito rico em relação aos elementos da Análise do Discurso. Luara faz parte do Grudiocorpo há um ano e tem apresentado trabalhos científicos em diferentes universidades do país. “O projeto contribuiu muito para a minha formação como estudante. Eu vejo que tive uma grande chance de me aperfeiçoar, conhecer uma nova teoria e aumentar meus conhecimentos”, declara Luara Vieira.
Nilton Milanez diz que não costuma fazer separação entre professor e aluno na pesquisa: “É um trabalho em conjunto, que a gente realiza dentro do Grudiocorpo. Os alunos que estão apresentando análises no curso conquistaram esse espaço pelo trabalho, pelas nossas discussões, pelas leituras. Quando a gente tem um trabalho legal assim, é preciso ter visibilidade”.
Três filmes ainda serão exibidos e discutidos no curso: Pixote, Blade Runner e Os Sonhadores. No próximo dia 16, será a vez de Pixote surpreender o público.
Por Ana Oliveira