domingo, 13 de junho de 2010
Curso na UFPB
Leia abaixo o Cordel do Poeta Nelson Barbosa de Ararif feito exclusivamente para (e durante)o Curso:
Abriu maio com firmeza
o movimento de vez
Ivone, bem equipada
um convite fez
Pense,que é show de bola
esse curso da escola
do Professor Milanez
O seu vastíssimo currículum
legitima a trajetória
numa bela experiência
nova conquista de Glória
no decorrer desse curso
analisamos discurso
fundamentando a memória
Nas instâncias do discurso
ali o sujeito está
a voz, o que representa
que interferência há
em quais marcasse instala
quem fala e de onde fala
quem é o seu titular...
Entre a coisa e a palavra
há um distanciamento
uma é mais flexível
a outra um tombamento
uma coisa é uma coisa
Palavra é investimento
A senha que acessa os signos
da memória dos sinais
faz a leitura dinâmica
perpassar o que está por trás
AD, num sentido crítico
com seu olhar analítico
ensina a gente a ver mais
Agora fique atento
a tudo o que está na vez
ao ver uma propaganda
procuro saber quem fez
qual a ideologia
quer me fazer de freguês
Pense num sujeito experto
depois que ouvi de perto
o Professor Milanez
domingo, 16 de maio de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Projeto de Extensão 2010 - VALE A PENA CONFERIR!
O Labedisco está com tudo em 2010. Para começar o ano com o pé direito, o Prof. Nilton preparou um Projeto de Extensão que irá deixá-lo de boca aberta. Com temas diversificados e bastante interessantes que irá contagiá-lo, além de uma grande troca de aprendizado o projeto oferece entretenimento e muita diversão. Confira a programação e participe.PROGRAMAÇÃO
OFICINA DE LEITURA CORPO, MEMÓRIA E IMAGEM
Duração: março à maio
Dia: Terças-feiras
Local: Labedisco
Carga horária: 30h/aula
Estudo 1
MILANEZ, Nilton. O nó discursivo entre corpo e imagem: que identidade para o brasileiro é essa? In: MACHADO, Ida Lucia; MENDES, Emília; LIMA, Helcira. Revista de Estudos Semiodiscursivos. Imagem e Análise do Discurso. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010 (no prelo) .
Discussão: Prof. Dr. Milanez e Profa. Joseane Bittencourt (Labedisco/UESB).
FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta neves. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2000.
Discussão: Profa. Msnda. Cecília Barros (FAPESB) e Profa. Joseane Bittencourt (Labedisco/UESB).
Estudo 2
SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Tradução de José Rivair Macedo . Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007, p. 133-162 (Cap.4).
Discussão: Júnia Ortiz (IC/CNPq).
Estudo 3
SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Tradução de José Rivair Macedo. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007, p. 219-278 (Cap.7).
Discussão: Profa. Msnda. Cecília Barros (FAPESB).
Estudo 4
SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Tradução de José Rivair Macedo. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007, p. 303-325 (Cap.9).
Discussão: Fernanda Rivera (IC/FAPESB).
SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Tradução de José Rivair Macedo. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007, p. 351-368 (Cap.11).
Discussão: Wilson Fernandes Júnior (ICV/UESB).
Estudo 5
MONTEIRO, Luiz Felipe C. MATÉRIA DE HOMENS: Apontamentos sobre as interpelações de Foucault à teoria dos sonhos em Freud e Binswanger. Monografia, 2005.
FOUCAULT, M. Introdução (In Binswanger). In:_______. Ditos e escritos. V. I – Problematização do sujeito: Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002b, p. 71-132.
Discussão: Profa. Msnda. Cecília Barros (FAPESB).
Estudo 6
HALBWACHS, Maurice. Introdução. In: _______.A memória coletiva. Tradução de Beatriz Siodu. São Paulo: Centaur o, 2006, p. 17-23.
Discussão: Profa. Joseane Bittencourt (Labedisco/UESB).
HALBWACHS, Maurice. Memória Individual e memória coletiva. In: _______. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Siodu. São Paulo: Centauro, 2006, p. 29-70.
Discussão: Prof. Dr. Nilton Milanez e Profa. Joseane Bittencourt (Labedisco/UESB).
Estudo 7
HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva e memória histórica. In: _______. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Siodu. São Paulo: Centauro, 2006, p. 29-70.
Discussão: Prof. Dr. Nilton Milanez e Profa. Msnda. Cecília Barros (FAPESB).
Estudo 8
Bodei, Remo. Adeus ao passado: memória histórica, esquecimento e identidade coletiva. In _______. Livro da Memória e da Esperança. Trad. Letizia Zini Antunes. Bauru, São Paul o: EDUSC, 2004, p. 35-68.
Discussão: Prof. Dr. Nilton Milanez.
Estudo 9
YATES, Frances A. A memória medieval e a formação de um sistema de imagens. In: _______. A arte da memória. Tradução Flavia Bancher.Campinas, São Paul o: Editora da Unicamp, 2007, p. 111 -138.
Discussão: Júnia Ortiz (IC/CNPq).
Estudo 10
YATES, Frances A. Os tratados sobre memória. In: _______. A arte da memória. Tradução Flavia Bancher. Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2007, p. 139-170.
Discussão: Fernanda Rivera (IC/FAPESB).
Os textos abaixo também compõem o arcabouço teórico desta oficina e serão discutidos dentro do quadro de cursos e minicursos.
Curso “Recordar, repetir e elaborar” e “ Fenomenologia da percepção”: produção de sentidos da memória e do corpo em Freud e Merleau-Ponty.
Prof. Dra. Lélia Reis (UFBA).
FREUD, Sigmund. (1914) Recordar, repetir, elaborar, vol. XII. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro: Imago, 1996.
PÊCHEUX, M.. Papel da memória. In: ACHARD, P. (et al). Papel da memória. Campinas: Pontes Editores, 2007. p. 49-57.
MINICURSOS
Minicurso 1
(IM)POSSIBILIDADES DE EFEITOS DA MEMÓRIA NA (RE)PRODUÇÃO DE DISCURSIVIDADES
Prof. Msndo. João de Deus Leite (PPGEL-ILEEL-UFU/CAPES) e Profa. Msnda. Sirlene Cíntia Alferes (PPGEL-ILEEL-UFU/CAPES) - 16 de março, terça, às 19h no Salão do Júri.
Leituras Recomendadas:
PÊCHEUX, M. Ler o arquivo hoje. In. ORLANDI, Eni P. (org) [et. al.]. Gestos de leitura: da história no discurso. Tradução: Bethânia S. C. Mariani [et. al]. Campinas: Editora da Unicamp, 1994, p.55-66 (Coleção Repertórios).
PÊCHEUX, Michel. Papel da memória. In: ACHARD, Pierre [et al.]. Papel da memória. Tradução e introdução: José Horta Nunes. 2 ª Edição. Campinas, SP: Pontes Editores, 2007. p. 49-57.
Minicurso 2
HISTÓRIA E MEMÓRIA EM ZARATUSTRA: CONJUNTURAS PARA PENSAR A VONTADE DE PODER
Prof. Msndo. Guilherme Figueira Borges (PPGEL-ILEEL-UFU/CAPES/LEP) 30 de março, terça, às 19h no Salão do Júri.
Minicurso 3
NEUTRALIDADE NO TRIBUNAL: A POLÊMICA NO DISCURSO JURÍDICO
Prof. Dr. Jorge Viana Santos (UESB-GPEL-GPADis/CNPQ) - 22 de maio, sábado, 14h no Salão do Júri.
Minicurso 4
PRÁTICAS JUDICIÁRIAS E DISCURSOS SOBRE O ‘MENOR INFRATOR’
Profa. Msnda. Cecília Barros-Cairo (Mestrado/FAPESB) - 22 de maio, sábado, 14h no Salão do Júri.
Minicurso 5
DISCURSO, MEMÓRIA E HISTÓRIA NA LITERATURA
Profa. Msnda. Jaci ane Martins Ferreira (GPAD/ UFU; Grudiocorpo/UESB) e Profa. Msnda.Kari na Luiza de Freitas Assunção Grupo (GPAD/ UFU; Grudiocorpo/UESB) - 25 de maio, terça, 19h no Salão do Júri.
Minicurso 6
O CORPO E O CULTO À MASCULINIDADE: O DISCURSO MIDIÁTICO SOBRE O HOMEM GAY
Prof. Dr. Marcus Lima (DFCH/UESB) - 15 de junho, terça, 19h no Salão do Júri.
Minicurso 7
A ESCRITA DE SI: MICHEL FOUCAULT, SÊNECA E CLARICE LISPECTOR
Profa. Dra. Maria das Graças Fonseca Andr ade (DELL/UESB) - 22 de junho, terça, 19h no Salão do Júri.
Observação: Os minicursos continuam em 2010.2. Aguardem nova programação.
CURSOS
Curso 1
Prof. Dra. Lélia Reis (UFBA)
20 de março, sábado, às 13 h
Salão do Júri
Leituras Recomendadas:
FREUD, Sigmund. (1914) Recordar, repetir, elaborar, vol. XII. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
COSTA, Hilda Rodrigues. Saussure, Os Estudos Lingüísticos no século XX e a Lingüística Aplicada. REVELLI Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas, ISSN 1984-6576 - v. 1, n. 2, outubro de 2009.
FURLAN, Reinaldo; BOCCHI, Josiane Cristina. O corpo como expressão e linguagem em Merleau-Ponty. Estudos de Psicologia 2003, 8(3), 445-450
Vídeoconferência com FANI HISGAIL. DIÁLOGOS ENTRE PSICANÁLISE E SEMIÓTICA.
Curso 2
Prof. Dr. Nilton Milanez (Labedisco/UESB;Grudiocorpo/CNPq)
06, 13, 20, 27 de abril, terças, 19h
Teatro Glauber Rocha
Cartaz do curso
Observação: Os cursos continuam e m 2010.2. Aguardem nova programação.
domingo, 8 de novembro de 2009
O Desdobrar de imagens: Questões de discurso e representação, por Janaina de Jesus Santos
No dia 16 de Outubro deste ano, Janaina de Jesus Santos ministrou uma palestra sobre o texto "Isto não é um cachimbo", de Michel Foucault. Janaína possui graduação em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2000). Especialização em Lingüística aplicada ao Ensino do Português (2006). É Coordenadora Pedagógica do Museu Regional, Assistente de Pesquisa do Grupo de Estudos sobre o Discurso e o Corpo, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e professora na Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Atualmente, cursa Mestrado em Estudos Lingüísticos na Universidade Federal de Uberlândia e participa do Grupo de Pesquisa em Análise do Discurso - GPAD. Esta palestra tratou sobre questões relacionadas ao discurso e representação, conforme Foucault em "As palavras e as coisas".
O DESDOBRAR DE IMAGENS:
Questões de discurso e representação
Janaina de Jesus Santos (UESB/ UFU/LEDIF/GRUDIOCORPO)
Ao analisar o quadro geral da idade clássica, Foucault (2002a) problematiza o universo da ordem e da representação. Uma época em que as palavras e as coisas se distanciam: as coisas não mais falam, nem guardam uma verdade secular; são, antes, tomadas como signo no domínio dos conhecimentos empíricos, em detrimento de uma semelhança. O mundo deixa de ser texto indefinidamente interpretável. A relação do signo com o conteúdo não mais é assegurada na ordem própria das coisas, e sim no liame entre a idéia de uma coisa e a idéia de uma outra. Isto é, não há sentido no mundo, anterior ou exterior ao signo. “Eis, pois, os signos, libertos de todo esse fervilhar do mundo onde o Renascimento os havia outrora repartido. Estão doravante alojados no interior da representação, no interstício da idéia, nesse tênue espaço onde ela joga consigo mesma, decompondo-se e recompondo-se.” (FOUCAULT, 2002a, p. 93)
Seguido do abandono da interpretação e do estabelecimento da ordem, temos uma cientificidade empirista que fala da possibilidade e da impossibilidade da representação. Tenta-se definir a positividade em termos matemáticos, tentando aproximar os seres e criar um inventário de tudo nas ciências humanas que seria matematizável (FOUCAULT, 2002b).
No século XIX, a teoria da representação desaparece como fundamento geral de todas as ordens possíveis, a linguagem deixa de ser um quadro espontâneo e primeiro das coisas, como suplemento indispensável entre a representação e os seres. De acordo com Foucault (2002b), as ciências humanas se constituem na forma como o homem se representa: “é esse ser vivo que, do interior da vida à qual pertence inteiramente e pela qual é atravessado em todo o seu ser, constitui representações graças às quais ele vive a partir das quais detém esta estranha capacidade de poder se representar justamente a vida.” (FOUCAULT, 2002b, p. 487)
Analisando a representação, Foucault (2006a) questiona como ela acontece no quadro do pintor René Magritte “Ceci n’est pas une pipe”. Inicialmente, propõe analisar o quadro como caligrama em que as palavras conservaram sua derivação do desenho e seu estado de coisa desenhada, em que as lemos superpostas a si próprias. Palavras desenhando palavras e formando, na superfície da imagem, uma frase que diz que isto não é um cachimbo, no deslocamento do texto para a imagem. Depois, pondera que em sendo o cachimbo representado, desenhado com a mesma mão e com mesmo instrumento que as letras do texto, ele é uma extensão das letras. E conclui que “A prévia e invisível operação caligráfica entrecruzou a escrita e o desenho; e quando Magritte recolocou as coisas em seu lugar, tomou cuidado para que a figura retivesse em si a paciência da escrita e que o texto fosse apenas uma representação desenhada” (FOUCAULT, 2006a, p. 252).
Assim, Foucault (2006a) conclui sobre o imperativo de fazermos leituras que ultrapassem as barreiras da decifração, para que analisemos nas possibilidades de sentido do texto, além do próprio texto, uma vez que no próprio ato de ler a forma se dissipa, desenrolando apenas o sentido num processo situado no espaço e no tempo. Para quem o lê, o caligrama não diz a coisa representada, ele está demasiadamente preso na forma e dependente da semelhança. Por conseguinte, o caligrama não diz e não representa nunca no mesmo momento, sua leitura é sempre atualizada no seu acontecimento. A forma desenhada do cachimbo expulsa o texto explicativo ou designativo: “O caligrama desfez este interstício; mas, uma vez reaberto, ele não o restaura; a armadilha foi quebrada no vazio: a imagem e o texto caem cada um do seu lado, de acordo com a gravitação que lhes é própria.” (FOUCAULT, 2006a, p. 254). Texto em imagem de texto e imagem em texto.
A representação do real, por si mesma, é parte do real, não se constrói numa relação paralela ou independente. Mesmo ao pensarmos o cinema como lugar privilegiado para compreendermos o movimento discursivo, temos em vista que nunca vai alcançar o fato em si, será sempre uma representação do fato que se multiplica e presentifica a cada ato de análise. Portanto, a única forma de apreendermos o real é por meio de nossas percepções dele.
Referências
FOUCAULT, Michel. Repersentar. In: As palavras e as coisas. Uma arqueologia das Ciências Humanas. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 63-105.
______. Isto não é um cachimbo. In: Michel Foucault: Estética: literatura e pintura, música e cinema. Ditos & Escritos. v. III. MOTTA, Manoel Barros da. (Org.). Trad. de Inês Autran D. Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 247-263.
Para ter acesso ao power-point, apresentado por Janaína, clique aqui.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Observações sobre o corpo no conto de Hoffman: Profa. Dra. Lucia Ricotta
No dia 06 de outubro, a professora adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia Lucia Ricotta - graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica/RJ, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutora em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica/ RJ - discorre sobre o corpo no conto O Homem da Areia, de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann,emuma Conferência realizada pelo LABEDISCO no curso "Discurso e Corpo: imagens na mídia e naliteratura". Para situar os leitores perante o que foi discutido na Conferência, disponibilizamos um texto sucinto e logo em seguida, o próprio conto para aqueles que desejam ler e tê-lo em seu computador.
O Homem da Areia de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), cuja primeira publicação foi em 1817, pertence à tradição do Kunstmärchens, fairy tale, contos feéricos, visionários e está ligado ao maravilhoso, ao fantástico, ao anônimo, ao folclórico, porque tem uma referência forte em variantes de histórias populares orais. Por outro lado, também está ligado ao chamado Schwarzen Romantik (o romântico noturno, sombrio, enegrecido, tingido de negro). Nesse sentido, ele pode ser classificado como um Schauerroman, uma história de suspense. Então, o homem de areia é conhecido popularmente, como a própria babá do personagem do conto relata, como um homem malvado que aparece para as crianças travessas quando elas não querem ir dormir e joga nos olhos delas um punhado de areia, de forma que os olhos saltam do rosto sangrando; depois o homem de areia pega esses olhos das criancinhas travessas e os carrega para a lua, para alimentar seus rebentos. E lá seus rebentos empoleirados em seu ninho bicam, com seus bicos de coruja, os olhos das criancinhas travessas. Neste sentido, tem-se a questão da visão/clareza e visão/terror, visão/delírio imaginativo e desvario imaginativo = visão como engajamento poético na vida. Nesse texto, Hoffmann parece se fixar no tema do olho, na faculdade visual do olho, do olhar, da visibilidade, da aparência para revelar o quanto esses são sentidos enganosos, que baralham as fronteiras entre real e imaginoso ou ficção e realidade. Não existe uma visão pura, desprovida de paixão, de afecção que o mundo dos fenômenos pode nos provocar. Trata-se de uma visão do espírito. Mas não uma visão espiritualista, mas a visão animada do espírito, pelos poderes da mente do espírito. Uma visão que engendra outras visões daquilo que não está lá. Com isso, ele nos sugere que a visão do mundo exterior não é uma visão transparente, direta, imediata, mas trata-se de uma visão mediada pela mente, pelo espírito poético etc.
Portanto é possível pensar infância/pureza e perversidade; na questão das mediações e instrumentalizações; do sujeito que vive lançado sobre sua alma, que assujeita o mundo ao seu ponto de vista; do corpo como maquínico com vida e um corpo maquínico sem vida. O humano como maquínico, a inimaginável humanidade das máquinas, que, na verdade, está ligado à questão subterrânea sobre o que há de inumano e de inumanidade no homem ou no humano e a questão do estranho-íntimo. A dimensão do outro em nós, a dimensão do desconhecido, do soturno, sombrio que está ao lado da razão clara e distinta. Talvez isso explicaria porque o estranho, o abjeto (aquilo que é desprezível, baixo, ignóbil) causa-nos um magnestismo, no sentido de que somos atraídos por algo que não podemos conhecer.
A questão do estranho-íntimo como sublime: o estranho e monstruoso também estão ligados a uma dimensão do sublime, daquilo que não é passível de representação, que ultrapassa as faculdades de apreensão da razão humana, é maior que o homem, tem uma dimensão de ininteligível, nossas faculdades da imaginação, entendimento e razão não estão à altura dele, literalmente. O sublime, segundo Kant, torna nossa capacidade de resistência de uma pequenas insignificante em comparação com o seu poder. Não é possível conceitualizar o sublime terrificante, no entanto, não podemos resistir face à grandeza de impressões que ele nos provoca.
Os personagens:
1 – Natanael: protagonista completamente narcísico, cujo nome vem de natal (nascimento) e tânatos (o deus grego da morte). Freud vai interpretar tânatos como a pulsão de morte em contraposição à Eros, a pulsão da vida. Personagem completamente nebuloso que vive em meio a uma imaginação feérica, causada por uma espécie de trauma de infância, que veio da morte do pai. Completamente aterrorizado e ao mesmo tempo fascinado pelo homem de areia. Ver p. 115.
2 – Clara: noiva de Natanael, uma personagem lúcida, alegre, com idéias claras e distintas, que repreende a copiosa imaginação de seu noivo e representa uma espécie de limite à loucura imaginosa dele, aponto de ele a chamar de “autômato sem vida”: p. 122, 123 e p. 128.
3- Coppelius – um cara assustador, horripilante, desfigurado, deformado, o qual corresponde, do ponto de vista de Natanael, ao homem de areia. É um amigo do seu pai, que chega todas as noites na casa de Natanael, na hora em que a mãe leva os filhos para dormir. É o cara que faz com seu pai experimentos alquímicos. Ele representa o unheimilich: o estranho, o sinistro que fascina e aterroriza, ao mesmo tempo, é o estranho-íntimo, essa acho a melhor tradução. Ver p. 117, 118 e 119.
4- Coppola (nome italiano que quer dizer o côncavo do olho, Augenhöhle): é um vendedor ambulante italiano que vende barômetros, lentes, óculos, lunetas, um fatal vendedor. Nataniel confunde Coppola e Coppelius. Interessante que esses instrumentos da visão, que visam a aproximar, distanciar e instrumentalizar uma visão mais precisa e rigorosa do real, do detalhe realista é justamente o que vai embaralhar o espírito de Natanael, é justamente o que irá expor as formas invisíveis a seus olhos.
- 5 - Olímpia (aquela que veio do olimpo; como uma espécie de escárnio ao clássico): Filha do professor de Natanael, que ele mais tarde descobriu que era uma autômata, uma boneca feita de mecanismos, e que se tornou o fundamento da loucura e insanidade de Natanael. Ela inspira o amor e a paixão inebriante e cega de Natanael, a ponto dela ser representada por ele como um autômoto com vida. A visão dos olhos dela, do ponto de vista de Natanael, é maior que todas as linguagens, dela emana a paixão que vai irradiar todos os pensamentos de Natanael, nela ele encontra todo o seu ser. P. 133 e 134
- E o final: p. 145 e 146.
- Ler passagem em que ele descobre que ela é um autômato. P. 142 e 143.
- 6 – Lotar: o irmão de Clara
- 7- Spalanzani: o pai de Olímpia.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Entrevistas Labedisco: Prof.ª Marisa Gama-Khalil
Nesta entrevista concedida ao Labedisco, a professora adjunta da Universidade Federal de Uberlândia Marisa Martins Gama-Khalil – graduada em Português e Literatura pela Fundação Educacional Unificada Campograndense/RJ, mestre em Letras Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/Assis e doutora em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/Araraquara – discorre, nesta primeira parte, sobre o discurso literário presente no conto “Fita verde no cabelo”, de João Guimarães Rosa (o qual, para maior compreensão, você pode ler aqui).
Na segunda parte da entrevista, a professora fala, ademais, sobre Língua e Discurso. Assista:
Conto “Fita verde no cabelo (nova velha história)” de João Guimarães Rosa; Numa leitura do conto de fadas 'Chapeuzinho Vermelho', Guimarães Rosa mostra a trajetória das fantasias de uma adolescente até o confronto com a morte de sua avó, quando 'mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez'. Como curiosidade, o conto ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Ilustração e Melhor Produção Editorial pela Câmara Brasileira do Livro e o Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores. Eis a seguir o texto:
Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita - Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar fambroesas.
Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então ela, mesma, era quem dizia: "Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou". A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto passa por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
- "Quem é?"
- "Sou eu..." - e Fita Verde descansou a voz. - "Sou sua linda netinha, com cesto e com pote, com a Fita Verde no cabelo, que a mamãe me mandou."
Vai, a avó difícil, disse: - "Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus a abençoe."
Fita Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar apagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: - "Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo."
Mas agora Fita Vede se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
- "Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!"
- "É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...." - a avó murmurou.
- "Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados".
- "É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta..." - a avó suspirou.
- "Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?"
- "É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha...." - a avó ainda gemeu.
Fita Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: - "Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!..."
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
ROSA, João Guimarães. Fita Verde No Cabelo (Nova velha história). São Paulo, 1964.
(Gleyson Lima)
Entrevistas Labedisco: Prof. Cleudemar Alves Fernandes
O Grudiocorpo, através do Labedisco (Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo), entrevistou o Prof. Cleudemar Alves Fernandes, professor associado da Universidade Federal de Uberlândia, líder do Grupo de Pesquisa em Análise do Discurso daquela universidade (GPAD/UFU/CNPq) e coordenador do projeto de pesquisa “Vozes ao infinito: práticas discursivas e constituição de sujeitos em textos literários”, que, neste primeiro vídeo, falou um pouco sobre o seu livro Análise do discurso: reflexões introdutórias e sobre o que entender por Discurso. Confira abaixo:
Ainda, o professor abordou o tema do Sujeito discursivo:
E discorreu também sobre formação discursiva:
(Gleyson Lima)